A Mulher e o Ser Espiritual
Era uma vez uma pobre mulher que ajudou a um ser espiritual disfarçado, dando-lhe hospitalidade quando outras pessoas o haviam botado para fora.
Quando se retirou da casa da mulher ele falou:
– Amanhã, procure realizar tua primeira tarefa durante o dia todo.
Ela pensou que era uma estranha forma de mostrar agradecimento, mas, em seguida esqueceu o assunto.
No dia seguinte um mercador trouxe para a mulher um pequeno carretel de fibra de ouro e pediu para que ela lhe bordasse uma capa, pois bordar era seu trabalho, quando conseguia ter algum.
Então ela desenrolou o fio de ouro e bordou a roupa. Quando terminou, viu que tinha ainda mais fio de ouro no chão do que quando havia começado seu trabalho. Quanto mais enrolava o fio de ouro numa bola, mais fio aparecia.
Enrolou o dia inteiro e à noite tinha uma grande quantidade de ouro. Por tradição, o fio restante pertencia à bordadeira.
Vendeu este fio de ouro, e com o dinheiro pôde reconstruir sua casa e mobiliá-la, assim como estabelecer-se com um bom negócio.
Como é natural, os vizinhos sentiram curiosidade, e ela lhes contou como havia mudado a sua sorte e como tudo tinha acontecido.
Algum tempo mais tarde, um mercador da mesma cidade viu e reconheceu o forasteiro com poderes mágicos de quem a mulher lhe falara e o convidou a sua loja e a sua casa.
Mostrou para com o ser espiritual uma grande hospitalidade, imitando a forma de agir das pessoas generosas, extremando inclusive suas atenções.
Pensava: “Espero que agora me caia algo no meu colo… e, claro, para todos deste povo também”.
Agregou a segunda frase a seu pensamento porque, apesar de ser cobiçoso, imaginou que, lembrando-se dos outros, obteria algo para si; mas, não obstante, estava imitando a caridade, porque não pensava que o bem dos outros equivalia a seu próprio bem, salvo com ideia posterior.
Mas para ele as coisas resultaram diferentes de como foram para a mulher caridosa.
Quando o forasteiro estava a ponto de partir o mercador lhe falou:
– Concede-me uma graça.
– Eu não faço tal coisa – disse o forasteiro – mas eu desejo que tua primeira preocupação de hoje dure para você toda uma semana.
O ser espiritual continuou seu caminho e o mercador se dirigiu à sua loja, onde se propunha contar dinheiro e multiplicá-lo toda uma semana.
Ao atravessar seu próprio pátio, o mercador se deteve para beber água do poço. Tão pronto como subiu o primeiro balde cheio, se sentiu obrigado a extrair outro e mais outro, e assim continuou durante toda uma semana.
A água inundou sua casa, depois a de seus vizinhos e finalmente todo o povoado, provocando quase sua ruína.
Extraído do livro: Histórias da Tradição Sufi
